RESUMO: A maioria dos pacientes pode continuar o GLP-1 antes de procedimentos eletivos; estratifique o risco e libere líquidos claros até 2 h como nas diretrizes de jejum atuais. Em alto risco (sintomas GI, fase de escalonamento, doses altas, comorbidades que retardam esvaziamento), faça dieta líquida por 24 h, considere POCUS gástrico e medidas de proteção de via aérea; adie se necessário
1) O que há de novo (2024–2025)
1.1. Virada de chave nas recomendações
Uma orientação clínica multisocietária (ASA + AGA + sociedades de cirurgia bariátrica e cuidado perioperatório da obesidade, 29/out/2024) consolidou que “a maioria dos pacientes pode continuar GLP-1” antes de cirurgia eletiva, com dieta líquida de 24 h e mitigação de risco apenas para subgrupos selecionados. Isso atualiza a postura conservadora de 2023 (segurar 1–7 dias).
1.2. Evidências de risco de aspiração
Estudos publicados em 2024–2025 não mostraram aumento significativo de pneumonia aspirativa pós-operatória em usuários de GLP-1 quando manejados de forma protocolizada; grandes coortes/endoscopia apoiam abordagem baseada em risco (com ênfase em líquidos claros 24 h em alto risco) em vez de suspensão universal.
1.3. Reguladores atualizaram alertas
EMA/MHRA (Europa/Reino Unido, 2024): atualizaram bula para orientar que pacientes informem o uso de GLP-1 antes de cirurgia/sedação profunda; reconhecem mecanismo de retardo do esvaziamento e raros relatos de aspiração.
2) Jejum em 2025: o que permanece e o que evoluiu
• ASA (atualização modular 2023): reforça que líquidos claros, inclusive com carboidrato, são seguros até 2 h antes de procedimentos eletivos em adultos saudáveis; sólidos leves 6 h; refeições gordurosas 8 h. Essa base segue válida em 2025.
• Programas ERAS encorajam carboidrato até 2 h pela melhora metabólica e de conforto, sem aumento de eventos aspirativos quando selecionados corretamente.
3) Manejo prático do paciente em GLP-1
3.1. Classifique o risco de esvaziamento gástrico lento
Alto risco quando houver:
• Fase de escalonamento (primeiras 4–8 semanas) ou aumento recente de dose;
• Sintomas GI (náusea, vômitos, distensão, constipação importante);
• Doses altas/uso para obesidade;
• Comorbidades que retardam esvaziamento (ex.: Parkinson, neuropatia autonômica).
Conduta: dieta líquida 24 h, considerar POCUS gástrico, plano de via aérea protetora/RSI; adiar se risco não mitigável.
Baixo risco (assintomático, dose estável):
• Manter GLP-1; jejum padrão ASA; considerar bebida clara com carboidrato até 2 h quando apropriado.
3.2. Quando (ainda) faz sentido pausar?
Se o risco GI superar o benefício metabólico (p. ex., sintomáticos refratários, múltiplos fatores de risco, impossibilidade de mitigação), você pode optar por segurar – lembrando os esquemas clássicos (diários: segurar no dia; semanais: até 1–2 semanas, conforme serviço/paciente) coordenando controle glicêmico. A evidência recente sugere que pausar 7 dias não reduz RGC de modo confiável, então a decisão deve ser individualizada.
3.3. Emergência ou status incerto
Trate como estômago cheio: RSI, sucção disponível; POCUS se não atrasar cuidado.
4) Papel do ultrassom gástrico (POCUS)
• O POCUS gástrico tornou-se ferramenta útil para estimativa à beira-leito de conteúdo/volume gástrico e pode guiar decisões quando jejum é incerto ou há uso de GLP-1. Revisões de 2023–2024 sustentam sua aplicabilidade (embora ainda sem padronização universal).
5) Fluxo de decisão (texto para protocolo do serviço)
1. Checklist pré-op: usa GLP-1? quando foi a última dose? está em titulação? sintomas GI? comorbidades pró-gastroparesia?
2. Classifique risco:
• Baixo → manter GLP-1 + jejum ASA (líquidos claros até 2 h).
• Alto → líquidos 24 h + POCUS; planeje via aérea protegida; reavalie adiar.
3. Endoscopia/sedação profunda: aplicar mesma lógica; alto risco → líquidos 24 h e considerar via aérea protegida ou remarcação.
6) Pontos de consenso x controvérsia em 2025
• Consenso emergente: não suspender rotineiramente; estratificar risco; reforçar jejum moderno (líquidos claros até 2 h).
• Controvérsias: tamanho do efeito do GLP-1 no esvaziamento ao longo do tempo; qual o “cutoff” ideal de pausa em semanais; valor preditivo do POCUS fora de centros experientes. Estudos de 2024–2025 caminham para risco semelhante de aspiração com manejo adequado, mas reguladores mantêm alertas até que haja mais dados.
7) Jejum: lembretes rápidos para a prática
• Líquidos claros (água, chá/café sem leite, suco sem polpa; bebidas com carboidrato): até 2 h.
• Refeição leve/leite não humano: 6 h; refeição gordurosa/carnes: 8 h.
• Considere bebida com carboidrato até 2 h em pacientes selecionados (ERAS).

Referências
1. ASA + AGA + sociedades. New Multi-Society GLP-1 Clinical Practice Guidance (29/out/2024). “Most patients should continue GLP-1 before elective surgery.”
2. ASA. Consensus-Based Guidance on preoperative management of patients on GLP-1 RAs (2023) — base histórica e medidas conservadoras.
3. JAMA Network Open (2025). Preoperative GLP-1 RA use and postoperative aspiration pneumonia — sem aumento significativo.
4. ASA – Anesthesiology (2023 modular update). Preoperative fasting: carboidratos e líquidos claros até 2 h.
5. EMA/Reuters (2024). Atualização de bula/alertas para informar uso de GLP-1 antes de anestesia/sedação.
6. POCUS gástrico: revisões 2024 evidenciam utilidade na decisão perioperatória
