1. Introdução

A anestesiologia moderna ultrapassa os limites da farmacologia clássica ao incorporar avanços da farmacogenética e da farmacogenômica. Essas áreas exploram como variações genéticas individuais modulam a resposta a fármacos anestésicos, analgésicos e adjuvantes. Tais diferenças podem afetar a eficácia clínica, a duração do efeito, a velocidade de metabolização e o risco de eventos adversos, representando um passo em direção à anestesia personalizada. O entendimento dessa interface permite ao anestesiologista adequar protocolos a características moleculares únicas de cada paciente, aumentando segurança e qualidade assistencial.


2. Conceitos Fundamentais

    • Farmacogenética: ciência que investiga a influência de variantes de genes específicos (polimorfismos de ponto único, deleções ou duplicações) sobre a resposta individual a um medicamento.

    • Farmacogenômica: abordagem ampla que considera o conjunto do genoma e suas interações complexas na resposta a múltiplos fármacos.

    • Polimorfismos genéticos: alterações frequentes no DNA que podem impactar enzimas metabolizadoras (ex.: CYP450), receptores de membrana, canais iônicos e transportadores de fármacos.
      Esses mecanismos explicam por que pacientes expostos à mesma dose podem apresentar respostas tão diferentes  desde analgesia insuficiente até toxicidade grave.


3. Genes e Drogas de Interesse em Anestesia

3.1 Opioides

    • CYP2D6: enzima chave no metabolismo da codeína e do tramadol, transformando-os em metabólitos ativos (morfina e O-desmetiltramadol, respectivamente).
        • Ultrametabolizadores: risco elevado de depressão respiratória por produção excessiva de metabólitos ativos.

        • Metabolizadores lentos: analgesia ineficaz devido à ausência de conversão adequada.

    • OPRM1 (receptor µ-opioide): o polimorfismo A118G reduz a sensibilidade à morfina, exigindo doses mais altas para analgesia.

    • COMT (catecol-O-metiltransferase): variantes associadas à regulação da dopamina e catecolaminas influenciam a percepção dolorosa, modulando a necessidade de opioides.

3.2 Relaxantes Musculares

    • BCHE (butirilcolinesterase): variantes genéticas reduzem a atividade da enzima responsável pela hidrólise da succinilcolina, levando a apneia prolongada e necessidade de ventilação mecânica.

    • RYR1 e CACNA1S: mutações nesses genes estão relacionadas à hipertermia maligna, reação hipermetabólica grave desencadeada por anestésicos inalatórios halogenados e succinilcolina, caracterizada por rigidez muscular, acidose e hipertermia súbita.

3.3 Anestésicos Locais

    • Genes de canais de sódio (SCN9A, SCN10A): alterações nesses canais modulam a sensibilidade neuronal aos anestésicos locais, explicando casos de resistência parcial ou necessidade de doses mais elevadas.

3.4 Anestésicos Intravenosos

    • Propofol: metabolizado por CYP2B6 e UGT1A9; variantes podem prolongar o efeito sedativo e aumentar risco de depressão cardiorrespiratória.

    • Etomidato: embora haja menos dados, estudos sugerem que variações nos receptores GABA podem modificar resposta hipnótica e perfil de efeitos adversos.


4. Implicações Clínicas

    • Segurança: testes genéticos podem antecipar riscos de eventos graves, como hipertermia maligna e apneia pós-succinilcolina.

    • Eficiência terapêutica: ajuste individualizado de opioides e hipnóticos aumenta a probabilidade de analgesia eficaz e reduz toxicidade.

    • Personalização da anestesia: a integração da farmacogenética possibilita esquemas sob medida, otimizando o controle da dor pós-operatória, reduzindo náuseas e vômitos e promovendo recuperação mais rápida.


5. Aplicações Futuras

    • Painéis genéticos pré-operatórios: poderão identificar riscos antes da indução anestésica, guiando condutas personalizadas.

    • Integração com inteligência artificial e big data: algoritmos preditivos podem correlacionar perfis genômicos com respostas a fármacos, auxiliando decisões em tempo real.

    • Medicina perioperatória de precisão: tendência crescente em que protocolos anestésicos são desenhados conforme o perfil molecular de cada paciente, ampliando o conceito de segurança e individualização.


6. Conclusão

A interface entre anestesia e genética é um campo em rápida evolução, com potencial para transformar práticas anestésicas tradicionais em protocolos baseados em evidências moleculares. Embora ainda não seja rotina clínica em larga escala, a queda dos custos de sequenciamento genético e o aumento do conhecimento científico tornam o uso da farmacogenética cada vez mais viável. Esse avanço contribui para uma anestesia mais segura, eficaz e personalizada, fortalecendo o conceito de medicina perioperatória de precisão.


7. Referências

    1. Apfel, C. C.; Kranke, P.; Eberhart, L. H. Postoperative nausea and vomiting: rational algorithms for prevention and treatment. Anesthesiology, v. 116, n. 3, p. 530–538, 2012.

    1. Bailey, C. R. et al. Peri-operative care of the adult patient: 2023 guidelines. Anaesthesia, v. 78, n. 5, p. 639–660, 2023.

    1. Kehlet, H.; Dahl, J. B. Anaesthesia, surgery, and challenges in postoperative recovery. Lancet, v. 362, p. 1921–1928, 2003.

    1. Lötsch, J.; Geisslinger, G. Current evidence for a genetic modulation of the response to analgesics. Pain, v. 121, n. 1-2, p. 1–5, 2006.

    1. Rosenberg, H.; Pollock, N.; Schiemann, A.; Bulger, T.; Stowell, K. Malignant hyperthermia: a review. Orphanet Journal of Rare Diseases, v. 10, n. 93, 2015.

    1. Zhou, S. F. Polymorphism of human cytochrome P450 2D6 and its clinical significance. Clinical Pharmacokinetics, v. 48, n. 11, p. 689–723, 2009.

    1. Golembiewski, J. A.; Chernin, E.; Chopra, T. Genetic variations in anesthesiology: clinical implications and future directions. Current Opinion in Anaesthesiology, v. 35, n. 3, p. 305–312, 2022.

    1. McDonnell, C.; Prows, C. A. Pharmacogenomics and perioperative nursing: implications for personalized anesthesia care. Journal of PeriAnesthesia Nursing, v. 36, n. 2, p. 159–168, 2021