Se o sistema cardiovascular do idoso nos ensina sobre a instabilidade hemodinâmica, o sistema respiratório nos ensina sobre a fragilidade da reserva. As alterações que ocorrem com a idade são graduais, mas as suas consequências na anestesia são agudas e, por vezes, dramáticas. Vamos mergulhar na fisiologia do pulmão geriátrico e transformar esse conhecimento em estratégias práticas para o seu próximo caso.

Pense nesta dualidade: a caixa torácica do idoso se torna rígida (calcificação de articulações, cifose exacerbada), enquanto o parênquima pulmonar se torna mais complacente (perda de elastina).

Implicações Clínicas Diretas:

  1. Mecânica Ineficiente: O tórax em barril e o diafragma retificado limitam o movimento. Some a isso a sarcopenia da musculatura respiratória, e o resultado é um aumento significativo do trabalho respiratório.
  2. Dificuldade de Retração Elástica: A perda de elastina é crucial. É essa força que mantém as pequenas vias aéreas abertas durante a expiração. Quando ela se perde, o colapso acontece mais facilmente.

CRF vs. Capacidade de Fechamento: O Conceito que Salva Vidas

Este é, talvez, o ponto mais importante. Com a idade, tanto a Capacidade Residual Funcional (CRF) quanto a Capacidade de Fechamento (CF) aumentam. O problema? A CF aumenta muito mais rápido.

  • Lembre-se: Aos 45 anos em decúbito dorsal e aos 65 anos sentado, a CF já excede a CRF.

Implicação Clínica: No seu paciente idoso deitado na mesa cirúrgica, as pequenas vias aéreas estão se fechando durante a respiração corrente normal. Isso gera atelectasias, alteração da relação V/Q e hipoxemia. É por isso que o uso de PEEP não é um luxo, mas uma necessidade fisiológica nesta população.

Resumo das Alterações nos Volumes e Capacidades Pulmonares:

  • Aumentam: Volume Residual (VR), Capacidade Residual Funcional (CRF), Espaço Morto.
  • Diminuem: Volume de Reserva Expiratória (VRE), Capacidade Inspiratória, Superfície Alveolar, PaO₂ basal.
  • Mantém-se Estável (ou reduz discretamente): Volume Corrente (VC), Capacidade Pulmonar Total (CPT).

Reflexos Protetores e Resposta Ventilatoria: Um Sistema Lento

  • Risco de Aspiração: Os reflexos de deglutição e tosse são menos eficazes. O risco de pneumonia aspirativa é real e aumentado.
  • Resposta Atenuada: A resposta ventilatória à hipercapnia e à hipoxemia é diminuída. O limiar apneico sob anestesia é mais baixo, tornando o paciente mais suscetível à depressão respiratória induzida por fármacos.

Manejo Anestésico: Estratégias Práticas para o Residente

1. Pré-oxigenação e Indução:

  • Pré-oxigene por mais tempo! A queda de saturação após a indução é muito mais rápida.
  • A anestesia geral em si já reduz a CRF em 0.8-1.0 L. A indução acrescenta uma perda de 0.4-0.5 L. Esteja preparado para essa perda funcional.

2. Ventilação Mecânica Intraoperatória:

  • Use PEEP: É fundamental para recrutar alvéolos, reduzir o shunt e prevenir a hipoxemia. Comece com 5 cmH₂O e titule conforme necessário, sempre de olho no débito cardíaco.
  • Otimize a FiO₂: Utilize a menor concentração de oxigênio que mantenha uma SpO₂ > 90-92% para evitar toxicidade, especialmente em pacientes com histórico de uso de bleomicina.
  • Monitorização: A capnografia é obrigatória. Lembre-se que o gradiente ETCO₂-PaCO₂ estará aumentado devido ao maior espaço morto.

3. Seleção de Agentes Anestésicos:

  • Anestésicos Inalatórios: A CAM é reduzida (cerca de 6% por década após os 40). Sevoflurano e desflurano permitem um despertar mais rápido, o que é vantajoso.
  • Anestésicos Intravenosos: As doses de todos os agentes (propofol, etomidato, opioides, benzodiazepínicos) devem ser reduzidas.
    • Propofol: Potente depressor respiratório, causa apneia frequentemente.
    • Etomidato: Causa menos depressão respiratória na indução.
    • Opioides e Benzodiazepínicos: A combinação é sinérgica e pode facilmente levar à apneia e obstrução de via aérea.
    • Dexmedetomidina: Preserva o drive respiratório, mas a sedação excessiva pode causar obstrução.

4. Anestesia Regional vs. Geral:

  • A anestesia regional pode ser uma excelente opção para preservar a função respiratória.
  • Cuidado: Níveis de bloqueio espinhal ou peridural altos podem comprometer a musculatura intercostal e a capacidade de tossir, o que é perigoso em pacientes com reserva limitada.

5. Cuidados na Recuperação:

  • O comprometimento ventilatório na SRPA é muito mais comum. Dor, atelectasia e respiração superficial levam à hipoxemia.
  • Evite a hipotermia! Ela retarda o metabolismo dos fármacos e antagoniza a reversão do bloqueio neuromuscular.
  • Considere o uso de CPAP no pós-operatório em pacientes de alto risco, como aqueles com Apneia Obstrutiva do Sono (AOS).

Dominar a anestesia no paciente geriátrico é uma jornada contínua. Entender a fundo a fisiologia respiratória é o que nos permite antecipar problemas e agir com precisão.

Continue a aprofundar os seus conhecimentos com o Hypnare!

 

Guia de estudos