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Encarar a anestesia no paciente geriátrico é um dos maiores desafios da nossa residência. Não se trata apenas de “reduzir a dose”, mas de compreender as profundas alterações fisiológicas que transformam a nossa prática. Aquele paciente de 80 anos, aparentemente compensado, não tem as mesmas reservas que um de 40.

Este post é o seu guia para navegar nesse universo. Vamos mergulhar na fisiologia e farmacologia do envelhecimento, transformando o conteúdo da aula em um guia prático e direto ao ponto.

O Conceito Central: Homeostenose e Fragilidade

Antes de tudo, dois conceitos-chave:

  1. Homeostenose: Pense nisso como a perda progressiva das reservas funcionais. Em repouso, tudo parece bem. Sob estresse (cirurgia, hipotensão, hipóxia), a capacidade de compensação é mínima.
  2. Fragilidade: É a manifestação clínica da homeostenose no limite. É uma síndrome de vulnerabilidade aumentada que prediz desfechos ruins como delirium, complicações e mortalidade.

Alterações Fisiológicas: O Que Realmente Muda?

1. Composição Corporal e Nutrição

  • Menos Água, Mais Gordura: A água corporal total diminui, enquanto a proporção de gordura aumenta.
    • Implicação Prática: O compartimento central é menor, levando a picos plasmáticos mais altos de fármacos hidrofílicos em bolus. O maior compartimento de gordura aumenta o volume de distribuição de fármacos lipofílicos, prolongando sua duração.
  • Sarcopenia: A perda de massa magra (músculos, órgãos) é inevitável. Isso diminui a taxa metabólica basal e a produção de calor.
  • Estado Nutricional: Idosos são mais propensos à desnutrição. Fique de olho em 3 marcadores que indicam a necessidade de adiar a cirurgia para otimização nutricional:
    • IMC < 18,5 kg/m²
    • Albumina < 3,0 g/dL (forte preditor de fragilidade e delirium!)
    • Perda de peso > 10-15% em 6 meses.

2. O Fígado e o Metabolismo

  • Fluxo e Função Reduzidos: O fluxo sanguíneo hepático cai de 20-40%.
    • Implicação Prática: As reações de Fase I (oxidação, hidrólise), que dependem do citocromo P450, ficam mais lentas. A produção de albumina e bile também diminui. O resultado é um clearance reduzido e maior duração dos fármacos.

3. O Rim e o Equilíbrio Hidroeletrolítico

  • Declínio Previsível: A TFG cai cerca de 1 mL/min/ano e o fluxo sanguíneo renal 1% ao ano após os 40 anos.
  • Menor Capacidade de Concentração: A medula renal menos hipertônica significa que o idoso não consegue poupar água de forma eficaz, aumentando o risco de desidratação.
  • SRAA Atenuado: A resposta do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona é ineficaz, elevando o risco de hipercalemia e disnatremias.
  • Disautonomia Renal: A autorregulação do fluxo sanguíneo se deteriora. Na prática, isso significa que o rim do idoso é extremamente vulnerável a episódios de hipotensão.

4. Termorregulação

A combinação de sarcopenia e resposta hipotalâmica ineficaz predispõe à hipotermia perioperatória. Isso é grave e pode causar:

  • Isquemia miocárdica (tremores aumentam o consumo de O₂).
  • Acúmulo de fármacos.
  • Aumento de infecção de ferida, deiscência e sangramento.

Farmacologia Aplicada: O Guia de Bolso

A regra de ouro é: maior sensibilidade e maior latência. O cérebro do idoso é mais sensível, e o tempo para o fármaco atingir o efeito máximo é maior. Titule devagar!

 

Agentes Intravenosos

  • Propofol: O efeito hipotensor é muito mais acentuado.
    • Dose de Indução Sugerida: ~1.7 mg/kg, titulada lentamente.
    • Infusão Contínua: Reduzir a dose em 30-50%.
  • Benzodiazepínicos: Aumentam significativamente o risco de delirium e quedas.
    • Dose: Reduzir em 50-75%.
    • Atenção: O midazolam possui o metabólito ativo hidroximidazolam, de eliminação renal.
  • Dexmedetomidina: Ótima para sedação consciente, mas cuidado com a bradicardia e hipotensão. Dose: Reduzir em 1/3.

Agentes Inalatórios

Sevoflurano: A CAM diminui aproximadamente 6% por década após os 40 anos. Use o monitor de profundidade anestésica!

Opioides

  • A potência analgésica é praticamente o dobro no idoso.

Dose: Reduzir em 50%, inclusive para o remifentanil (reduzir 50-66%).

Atenção: A morfina possui metabólitos ativos (M3G e M6G) de acúmulo renal. A meperidina deve ser evitada (metabólito neurotóxico e ação anticolinérgica).

Bloqueadores Neuromusculares (BNM)

  • Dose e Latência: A dose inicial de intubação não muda, mas a latência para o efeito máximo aumenta em 30-40%. Espere!
  • Manutenção: Prefira fármacos com metabolismo de Hoffman (ex: cisatracúrio).
  • Monitorização: O uso do TOF é indispensável.
  • Reversão: Cuidado com a atropina (risco de delirium) e a neostigmina (risco de bradicardia/distúrbios de condução).


Esperamos que este guia ajude a solidificar seu conhecimento e a aumentar sua confiança na anestesia para pacientes geriátricos. Continue acompanhando o Hypnare para mais conteúdo feito de residente para residente!

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