Olá, residente! Bem-vindo de volta ao Hypnare.

Seja numa raquianestesia para uma cesariana, numa peridural para analgesia de trabalho de parto ou num caudal pediátrico, os bloqueios de neuroeixo são a espinha dorsal (sem trocadilhos!) da nossa especialidade. A linha entre uma técnica elegante e uma complicação séria pode ser muito tênue.

Pensando nisso, o Dr. Hypno 🐨 e a equipe do Hypnare prepararam o guia definitivo: os 7 Pecados Capitais dos Bloqueios de Neuroeixo. Este artigo é o seu copiloto, do R1 ao R3, para navegar com segurança por cada punção.

1. O Pecado da Ignorância: Negligenciar as Contraindicações

O Erro Comum: Na correria de uma urgência ou na confiança da rotina, saltar o checklist mental das contraindicações. Uma punção num paciente com coagulopatia, infeção no local ou hipertensão intracraniana (HIC) não é um risco, é uma gafe.

O Bizu do Hypnare (com atualização): As contraindicações absolutas são inegociáveis. Para coagulopatia, as diretrizes da ASRA (American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine) são a sua bíblia – elas são frequentemente atualizadas e detalham os tempos de suspensão para cada anticoagulante/antiplaquetário. O risco de hematoma espinhal ou peridural é real e devastador. Para infeção, uma bacteremia ou sepse sistêmica deve ser pesada na balança, pelo risco de meningite ou abcesso peridural.

2. O Pecado da Pressa: Subestimar a Pré-Carga e a Simpatólise

O Erro Comum: Realizar o bloqueio e, minutos depois, ver a pressão arterial a “derreter” no monitor.

O Bizu do Hypnare: A simpatólise induzida pelo bloqueio é um evento fisiológico esperado, mas as suas consequências variam. A pré-carga adequada com cristaloides é fundamental. Tenha sempre um vasopressor de ação rápida (como fenilefrina para taquicardia ou efedrina para bradicardia) pronto na mesa. Lembre-se que pacientes nos extremos de idade (idosos e neonatos), gestantes e cardiopatas são especialmente vulneráveis. A hipotensão prolongada pode ter consequências renais, cardíacas e neurológicas graves.

3. O Pecado da Preguiça: Posicionamento Inadequado

O Erro Comum: Tentar uma punção com o paciente mal posicionado, transformando um procedimento simples numa batalha épica contra os ligamentos.

O Bizu do Hypnare: Um bom posicionamento é metade do sucesso. Para punções lombares, a flexão máxima da coluna (“posição fetal”) é crucial para abrir os espaços interespinhais. Alinhe orelha, ombro e crista ilíaca para garantir que o paciente não está rodado. Invista tempo no posicionamento; ele economiza tempo, stress e múltiplas tentativas.

4. O Pecado da Economia: Antissepsia Apressada

O Erro Comum: Uma passagem rápida do antisséptico, sem respeitar o tempo de contato ou sem um campo estéril completo.

O Bizu do Hypnare: Infecção do sistema nervoso central é uma complicação rara, mas catastrófica. A técnica deve ser asséptica e rigorosa. Use um agente adequado (clorexidina alcoólica é preferível), respeite o tempo de secagem (contato) e utilize um campo estéril completo. A segurança do paciente está nos detalhes.

5. O Pecado da Inércia: Doses “Tamanho Único”

O Erro Comum: Usar a mesma dose de anestésico local para todos os pacientes, ignorando as suas particularidades.

O Bizu do Hypnare: A dose em neuroeixo não é “tamanho único”. Ajuste a Massa Total do Fármaco (mg) de acordo com a altura do paciente (principalmente na raqui), a idade (idosos necessitam de doses menores), a gestação (a necessidade de dose é reduzida em até 30%) e o objetivo do bloqueio (analgesia vs. anestesia cirúrgica). Considere sempre a baricidade da solução na raquianestesia para controlar o nível do bloqueio.

6. O Pecado da Teimosia: Atingir o Espaço Errado

O Erro Comum: Persistir na punção quando a anatomia não é clara ou quando o paciente refere uma dor lancinante (parestesia).

O Bizu do Hypnare: Não tenha vergonha de parar, reavaliar e pedir ajuda. Se os marcos anatómicos não são claros, o ultrassom pré-punção é o seu melhor amigo. Ele pode identificar a linha média, a profundidade do espaço peridural e anomalias anatômicas. Na peridural, a perda de resistência deve ser clara. Na raqui, o refluxo de LCR confirma. Se o paciente se queixar de parestesia, NUNCA injete – retire e reposicione a agulha.

7. O Pecado da Despreocupação: Subestimar as Complicações Pós-Bloqueio

O Erro Comum: O bloqueio foi um sucesso, o paciente está bem e a monitorização pós-procedimento é relaxada.

O Bizu do Hypnare: O trabalho não termina na punção. Monitore ativamente:

Bloqueio Alto/Espinhal Total: A complicação mais temida. Esteja atento a dispneia, dormência nos membros superiores e instabilidade hemodinâmica. O manejo é de suporte imediato da via aérea e da circulação.

Retenção Urinária: Comum, especialmente com opioides neuroaxiais. Avalie a necessidade de cateterismo vesical.

Cefaleia Pós-Punção da Dura-Máter (CPPD): Mais comum em jovens e gestantes. O tratamento inicial é conservador, com o blood patch peridural como tratamento definitivo para casos refratários.

Toxicidade Sistêmica por Anestésico Local (LAST): Embora mais rara em bloqueios de neuroeixo do que em bloqueios periféricos, a injeção intravascular inadvertida pode ocorrer. Esteja pronto para o protocolo de emulsão lipídica a 20%!

🔥 Dica de Ouro Final do Dr. Hypno: A segurança nos bloqueios de neuroeixo vem da combinação de conhecimento profundo, técnica meticulosa e uma humildade constante para reavaliar e adaptar o plano.

E você, Residente? Qual destes “pecados” já te tirou o sono ou qual “bizu” te salvou de um perrengue? Partilhe a sua experiência nos comentários! 👇