Sumário

Fala, Hypnare!

Entre a indução e a extubação, o verdadeiro termômetro da sua performance hemodinâmica é o Rim. Ignorá-lo é convidar a Lesão Renal Aguda (LRA) para a cirurgia. Dominar a fisiologia renal não é só para o título; é para adquirir o superpoder de proteger seu paciente contra os desequilíbrios mais críticos do perioperatório.

Este é o seu manual ultra-completo para desvendar a engenharia do néfron, entender a fragilidade medular e navegar pela farmacologia anestésica em pacientes renais, separando o Remifentanil da bomba-relógio que é a Morfina!

MÓDULO I: ENGENHARIA AVANÇADA DO NÉFRON E REGULAÇÃO DE FLUXO

  1. Hemodinâmica e a Vulnerabilidade Extrema da Medula

Apesar do seu pequeno tamanho (0,4% do peso), o rim é uma potência metabólica: recebe incríveis 20% do Débito Cardíaco (DC), mas distribui esse fluxo de forma desigual, criando a “Zona de Penumbra” isquêmica na medula.

Tabela 1- Filtração Gomerular

 O Motor da Filtração: Forças de Starling no Glomérulo:

A Filtração Glomerular é um processo passivo determinado por quatro forças de Starling, que definem a Pressão de Filtração Líquida (PFL):

Tabela 2- Forças de Starling

 

MÓDULO II: FISIOLOGIA SEGMENTAR DETALHADA E TRANSPORTE DE SOLUTOS

O néfron é a unidade mestra da função renal, orquestrando a reabsorção, secreção e excreção para manter a homeostase do organismo. A compreensão de cada um de seus segmentos é crucial para entender a ação dos principais fármacos que atuam sobre eles.

1. Túbulo Contorcido Proximal (TCP)

  • Função: O “Operário” do Néfron. Reabsorve a MAIOR PARTE do filtrado.

  • % Reabsorção Na+/H2O: aproximadamente 65%

  • Solutos Chave: Reabsorção completa (100% de Glicose e Aminoácidos, e 65% do Bicarbonato (HCO3-).

  • Mecanismo Chave: A Anidrase Carbônica (essencial para a reabsorção de HCO3-) e o cotransportador SGLT2 (para Glicose).

  • Osmolaridade: Iso-osmótica (H2O segue o Na+).

  • Alvo Farmacológico:

    • Acetazolamida (Diurético). Inibe a Anidrase Carbônica, resultando em perda de HCO3- e Na+, podendo levar à acidose metabólica.

    • Gliflozinas (Inibidores do SGLT2): Promovem a glicosúria.

    • Manitol (Diurético Osmótico): Atua aqui, aumentando a osmolaridade tubular.

2. Alça de Henle – Ramo Descendente Fino (RDEF)

  • Função: Concentrar o fluido tubular, criando o gradiente osmótico medular.

  • % Reabsorção: 0% soluto. É permeável APENAS à H2O.

  • Mecanismo Chave: Canais Aquaporina-1 (Movimento Passivo da água, que é “puxada” pela medula hipertônica).

  • Osmolaridade: Hiperosmótica (Atinge a concentração máxima no ápice da alça).

  • Alvo Farmacológico: Manitol (Diurético Osmótico). Aumenta a osmolaridade do filtrado, retendo H2O e impedindo sua reabsorção (principal local de ação diurética).

3. Ramo Ascendente Espesso (RAEE) – O Segmento Diluidor

  • Função: Remover ativamente sais, o que é crucial para diluir a urina e manter o gradiente medular.

  • % Reabsorção Na+/H2O: aproximadamente 25% do Na+. É IMPERMEÁVEL à H2O.

  • Mecanismo Chave: O NKCC2 (Cotransportador de Na+, K+, 2Cl-).

  • Osmolaridade: Hipo-osmótica (Retira sal sem H2O).

  • Alvo Farmacológico: Furosemida (Diuréticos de Alça). Bloqueia o NKCC2. É o diurético mais potente, com risco de hipocalemia grave e ototoxicidade.

4. Túbulo Contorcido Distal (TCD)

  • Função: Regulação fina de eletrólitos, especialmente Na+ e Ca+2.

  • % Reabsorção Na+/H2O: aproximadamente 5% do Na+/Cl-.

  • Mecanismo Chave: Cotransportador de Na+Cl-. A reabsorção de Ca+2 é crucial e regulada pelo PTH.

  • Osmolaridade: Hipo-osmótica.

  • Alvo Farmacológico: Tiazídicos (Diuréticos). Bloqueiam o cotransportador Na+Cl-. Curiosamente, aumentam a reabsorção de Ca+2 (útil para prevenir pedras renais).

5. Túbulo Coletor (TC) – O Ajuste Fino

  • Função: Ajuste Fino Hormonal do volume, osmolaridade e equilíbrio ácido-base. É o principal local de ação da Aldosterona e do ADH.

  • % Reabsorção Na+/H2O: Variável.

  • Mecanismo Chave:

    • ENaC (Canais de Na+) e ROMK (K+) controlados pela Aldosterona (células principais).

    • Aquaporinas controladas pelo Hormônio Antidiurético (ADH) (também conhecido como Vasopressina).

  • Osmolaridade: Variável (Dependente da ação do ADH).

  • Alvo Farmacológico:

    • Antagonistas da Aldosterona (Espironolactona, Eplerenona): São Poupa-Potássio que bloqueiam o receptor de aldosterona, inibindo a reabsorção de Na+ e a secreção de K+.

    • Bloqueadores de ENaC (Amilorida, Triamtereno): Poupa-Potássio que agem diretamente nos canais ENaC.


💧 Ação dos Hormônios Antidiuréticos (ADH/Vasopressina) e seus Receptores

O Hormônio Antidiurético (ADH ou Vasopressina) desempenha um papel duplo, regulando tanto a reabsorção de água quanto o tônus vascular, através de diferentes receptores.

Tabela 3- Ação do ADH e seus Receptores

 

Fármacos Relacionados:

  • Desmopressina (DDAVP): Análogo sintético do ADH com alta seletividade para o receptor V2. É usada para tratar Diabetes Insipidus Central e Enurese Noturna.

  • Vaptanos (Conivaptan, Tolvaptan): Antagonistas do Receptor V2. Bloqueiam a ação do ADH no túbulo coletor, promovendo a excreção de  H2O (aquaréticos). São usados para tratar hiponatremia hipervolêmica (ex: insuficiência cardíaca, SIADH).

 

MÓDULO III: LRA E O SEGREDO DOS NÚMEROS

  1. Diferenciação LRA Pré-Renal vs. Necrose Tubular Aguda (NTA)

A Fração de Excreção de Sódio (FE/Na) é o marcador ouro da função tubular.

Tabela 4- Diferenças LRA pré-renal x NTA

 

  1. Classificação da LRA: Comparativo RIFLE, AKIN e KDIGO

O padrão ouro KDIGO diagnostica LRA pelo critério mais grave (CrS ou DU): CrS > ou igual a 0,3 mg/dL em 48 horas, OU CrS > ou igual a 1,5 vez o valor basal em 7 dias, OU DU <0,5 mL/kg/h por 6 horas.

Tabela 5- LRA e principais critérios

MÓDULO IV: FARMACOLOGIA ANESTÉSICA E RISCO RENAL

 
  1. Opioides: O Foco nos Metabólitos Tóxicos (DECORE ESTA TABELA!)

Tabela 6- Opióides e risco renal

 

  1. Agentes IV e Inalatórios & Interações Críticas
  • Tiopental e Propofol: Não são nefro-tóxicos diretos, mas o risco de hipotensão severa e prolongada é alto e leva diretamente à LRA ré-renal.
  • Sevoflurano: O risco teórico de nefrotoxicidade pelo Composto A (produto de degradação com cal sodada) é considerado clinicamente negligenciável, desde que o Fluxo de Gases Frescos (FGF) seja mantido em 1 L/min para limitar o acúmulo em anestesias de baixo fluxo.
  • IECA / BRA: Bloqueiam a Angiotensina II (AII), impedindo a vasoconstrição protetora da arteríola eferente (AE) e causando queda do RFG.
  • AINEs: Bloqueiam a síntese de Prostaglandinas que causam vasodilatação da arteríola aferente (AA) em hipoperfusão. Bloquear essa proteção em pacientes hipovolêmicos tem Alto risco de LRA.
 

💡 KOALA INSIGHTS: A PERFUSÃO É INEGOCIÁVEL!

O Anestesista de excelência não apenas monitora, ele domina a Fisiologia, transformando microdetalhes em macroproteção.

Você é o guardião da homeostase! No manejo da função renal, sua prioridade absoluta é a perfusão. Lembre-se: em casos de incerteza renal, o Remifentanil é o seu melhor aliado farmacológico pela sua metabolização ultracurta e independente dos rins.

Domine a Farmacologia. Proteja o Néfron.

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Referências:

Barash Anestesia

Miller Anestesia

Bases do Ensino da Anestesiologia